Sobre Mapas, Modelos Mentais e Paradigmas

por José V. Losada

Cada vez se vem observando no mundo inteiro um maior interesse pelo estudo e a consideração dos aspectos “pessoais” e, especificamente, intra-pessoais ou psicológicos, que intervêm no processo de trabalho. Parece que, em geral, como se tivesse vindo operando até hoje uma crescente “psicologização” do ato de trabalhar e, portanto, do mundo das organizações. Com efeito, nas últimas décadas cresceu o volume de pesquisas, publicações, teorias, enfoque e opiniões sobre toda sorte de variáveis pessoais presumivelmente vinculadas com o comportamento trabalhista.

A Progressiva “Personalização” do Ato de Trabalhar
Este fenômeno da progressiva “psicologização” do ato de trabalhar tem alcançado matizes realmente interessantes no âmbito institucional e organizacional. O observamos, por citar somente algumas áreas, em aspectos tais como as seguintes:

1. A destacada consideração das atitudes para o trabalho.
2. O acento nas múltiplas facetas e aplicações da comunicação interpessoal no contexto organizacional.
3. Os problemas colocados nas organizações pelo fenômeno da mudança e seus inquietantes efeitos.
4. A importância que se concede ao stress nas organizações e a um de seus problemas derivados, como é a denominada “adição ao trabalho”.
5. A atenção aos “mapas” ou “modelos mentais” e a uma parte importante destes, como são os “paradigmas”.
6. O conceito de aprendizagem organizacional.
7. A ênfase nos aspectos éticos na organização.

Façamos uma menção um tanto detalhada de só um destes fenômenos evidenciadores dessa tendência “psicologizante” ou “personalizante” presente nas organizações, empresas e instituições contemporâneas: os mapas ou modelos mentais e paradigmas.

Mapas ou Modelos Mentais
Recentemente, os psicólogos cognoscitivistas e construtivistas fizeram um aporte que veio tendo bastante incidência no mundo do trabalho. Trata-se da noção de mapas ou modelos mentais, dentro da qual cerca muito bem o conhecido conceito de paradigmas. Para Senge e outros (1995), os mapas ou modelos mentais são as imagens, supostos e histórias que temos na mente em relação ao mundo, de nós mesmos, dos demais e das instituições, e sem eles não poderíamos enfrentar o ambiente que vivemos. Segundo aqueles psicólogos, os seres humanos vivem em um mundo “real”, mas não operamos direta e imediatamente sobre esse mundo, mas atuamos dentro dele usando “mapas”, “representações”, “modelos” ou interpretações codificadas dessa realidade, as quais achemos ou inventamos permanentemente mediante nossos sistemas de processamento sensorial, nossos órgãos dos sentidos e nosso cérebro.

O conhecimento da realidade, portanto, não é algo que recebemos passivamente, mas algo que construímos e organizamos de forma ativa. Isto encerra o paradoxo que tudo o que percebemos e concebemos é necessariamente a conseqüência de nossos próprios modos e meios de percepção e concepção. Ou seja, que vemos o mundo conforme nós somos e não como o mundo é. O filósofo impassível Epicteto o expressou brevemente: “Não são as coisas as que preocupam os seres humanos, mas suas idéias em relação as coisas”. Então, esses mapas ou modelos nos servem de guia para nos orientar na realidade, mas não constituem a “realidade real”. Em outras palavras, “o mapa não é o território”: difere dele, é mal uma representação do mesmo e, como tal, pode apresentar e apresentam distorções, limitações e empobrecimentos, derivados das características peculiares da experiência de cada indivíduo. Além disso, podemos manter ou descartar esse mapa, segundo a utilidade que nos preste.

Cada indivíduo tem, pois, a capacidade de construir seu próprio mapa do mundo, seu próprio modelo ou representação interna do mundo, a partir da interpretação que dá à informação e a experiência que recebe da realidade externa, do meio ambiente. Esse mapa ou modelo está constituído pelo conjunto de crenças desse indivíduo, pelas suas opiniões, atitudes, teorias pessoais, aprendizagens, valores, estratégias, normas, regras, visão das coisas, atitudes de pensar, etc. Dali para dar-lhe sentido, compreender, codificar, interpretar e atuar sobre o mundo e o ambiente, as pessoas confiam nessas construções mentais que elaboram, nas suas representações particulares simplificadas da realidade. Essas construções constituem precisamente seus mapas ou modelos mentais, os quais estão conformados pelos acrescentados ou sistemas de informação inter-relacionada que dão origem a tais conceitos, regras, padrões, esquemas e atitudes de conceber o mundo. Desde a infância, os indivíduos atuam segundo seus modelos mentais e assim estruturam seus sistemas de valores e crenças, suas normas e princípios. De modo que esses mapas ou modelos mentais, que, pelos demais, como já disse, não são o território real, determinam ou afetam grandemente nosso comportamento e servem muito bem como rédeas para a ação. Em suma, atuamos como atuamos porque temos os modelos mentais que construímos. Por isso pode se dizer que, em essência, somos os mapas que temos (Barroso, 1987).

Os Paradigmas
A noção de “paradigmas”, que veio sendo popularizado pelo futurólogo norte-americano Joel A. Barker desde meados da época dos anos setenta, se encaixa muito bem dentro do conceito de “mapas” ou “modelos mentais”. De fato, os paradigmas são um componente muito importante de nossos mapas ou modelos mentais. São uma parte deles.

No campo da ciência os paradigmas se referem aos constructos arquetípicos que uma comunidade de cientistas compartilha para caracterizar a maneira como seus membros definem ou olham o mundo, ou como descrevem um fenômeno particular. Neste sentido, um paradigma é uma espécie de “idéia dominante” sustentada por um grupo de pessoas afins. De modo que, no fim das contas, cada área de conhecimento é um paradigma. De forma ampla, pode-se dizer que o paradigma é a maneira de perceber o mundo ou a forma básica de perceber, de pensar, de valorizar e atuar sobre a base de uma visão particular da realidade. Para muitas organizações, sua concepção de paradigma se aproxima ao de “cultura organizacional”, já que se refere a “a forma como se vieram fazendo e se fazem as coisas aqui e à forma como se seguirão fazendo”. Mais uma definição específica de paradigma é a de “um conjunto de regras e disposições implícitas ou explícitas que permite:

1) estabelecer e definir os limites de uma situação, e 2) indicar como se comportar para ter sucesso dentro desses limites” (Barker, 1995). O sucesso ou a utilidade de um paradigma se mede então pela capacidade que brinda para resolver problemas dentro das fronteiras que estabelece.

Para Barker, algumas características interessantes dos paradigmas são, entre outras, as seguintes:

- Em cada paradigma que está vigente já existem e podem ser identificadas os sinais do próximo paradigma que o substituirá. Os novos paradigmas se criam quando ainda os paradigmas a substituir são úteis, resolvem problemas e estão tendo sucesso.
- Os paradigmas estão mudando constantemente e a mudança paradigmático supõe e implica investir ou romper as regras vigentes.
- As pessoas que mudam os paradigmas são quase sempre forâneos, dissidentes ou neófitos, que não estão presos pelo paradigma vigente.
- O “efeito paradigma” é o que faz com que o que é notório e perfeitamente óbvio para uma pessoa com um paradigma dado, seja quase imperceptível para outra pessoa que tem um paradigma diferente.

Quando a gente muda seus paradigmas, sua percepção do mundo muda radicalmente.

Os paradigmas são muito úteis, já que nos permitem resolver com sucesso certos problemas que enfrentamos dentro de certos limites. Mas também são uma arma de dois gumes (Barker, 1995). Por uma parte, são bons filtros que servem para focalizar a atenção sobre a informação essencial e diferenciar a que é importante da qual não é, ajudando assim a identificar problemas relevantes e oferecendo formas de resolvê-los.

Mas, por outro lado, podem fazer com que ignoremos informação que não concorda com nossos paradigmas ou que os contradiz e, assim, terminamos considerando só aquilo que queremos ou esperamos considerar. De modo que se os dados não se ajustam ao paradigma que manipulamos, será pouco ou nada o que tomemos em conta. Isto pode constituir o que se chamou “o efeito paradigma” que cega os membros de uma organização em um momento dado, impedindo-lhes de ver novas oportunidades, reconhecer alternativas diferentes ou desenhar estratégias novas.

As organizações, como os indivíduos, têm também seus mapas ou modelos mentais e seus paradigmas. Estes conceitos estão se aplicando hoje no estudo dos processos de mudança organizacional (Barret ao., 1992), já que as reações ante a mudança (por exemplo, a resistência) parecem estar relacionadas com o tipo de mapas, modelos mentais ou paradigmas vigentes nas organizações. Assim, quando esses modelos mentais persistem no tempo se congelam e perpetuam, ou se tornam imprecisos, e terminam resultando inadequados para enfrentar certas situações que exigem comportamentos flexíveis e versáteis para a ação. De modo que se espera que os líderes efetivos e as organizações como um todo desenvolvam uma especial sensibilidade para reconhecer as mudanças presentes e futuros e reagir ante eles, isto é, possam mudar seus mapas ou modelos mentais e paradigmas em resposta a essas mudanças ambientais.

Em suma, em tempos de crises é especialmente importante apelar à grande qualidade que têm os seres humanos de mudar seus paradigmas e desenvolver assim certa “flexibilidade paradigmática”, ou seja, a capacidade para gerar paradigmas flexíveis, a habilidade para moldar intencionalmente e adaptar com fluência os paradigmas que manipulamos à constante mudança da realidade cotidiana das organizações e do mundo circundante.

O Acesso aos Modelos Mentais
Partindo que todos atuamos conforme os nossos mapas ou modelos mentais, um interesse especial de qualquer membro de uma organização, seja líder, gerente, profissional de recursos humanos, etc., é poder “ter acesso” a esses modelos mentais e paradigmas de seus interlocutores, sejam estes clientes, aspirantes a cargos, negociadores, supervisionados, supervisores, companheiros de equipe, etc., com o fim de obter um melhor conhecimento dos mesmos e propiciar um maior conhecimento a eles sobre a base de uma comunicação efetiva.

Diversos enfoques ofereceram sua contribuição para a melhor compreensão dos mapas mentais e paradigmas das pessoas. Os aportes feitos em anos recentes pelo modelo de comunicação denominado “Programação Neurolingüística” (PNL) sugerem algumas formas de se aproximar e acessar a esses modelos mentais e paradigmas (Cudicio, 1991; O’Connor e Seymour, 1992). Assim, pelo menos três vias podem se utilizar para esse conhecimento:

1) O conhecimento dos chamados “sistemas de representação” ou modalidades de pensamento do interlocutor, isto é, suas atitudes características de processar informação e se representar mentalmente as coisas, ou seja, suas formas de pensamento, sua maneira especial e peculiar para se relacionar com o mundo. Essas modalidades, identificáveis mediante certos sinais verbais e não verbais, são de três tipos: visual, auditiva e cinestésica, e estão estreitamente vinculadas à maneira como o cérebro processa, organiza e codifica sensorialmente a informação que recebe.

2) A identificação dos “padrões de linguagem verbal” do interlocutor. Todos falamos como sentimos e como pensamos, e muitas vezes, o inverso, pensamos e sentimos como falamos. Em todo caso, a linguagem verbal reflete nossa identidade como pessoas. Dali que poderia se afirmar então com bastante certeza: “Diga-me como falas e te direi como você é, ou como você pensa, ou como você sente, ou como você representa o mundo…” Mediante sua linguagem verbal, o interlocutor, por exemplo, um cliente ou um supervisionado, apresenta aos demais alguns indícios da forma como ele percebe e constrói a realidade, sua realidade. De modo que sua linguagem diz bastante em relação a ele como indivíduo, e nos permite também nos aproximar e conhecer alguns aspectos de seus modelos mentais e ter certo acesso a eles. Se você prestar atenção à forma como uma pessoa fala – ao que se chama a “estrutura superficial” de sua linguagem- se descobre que é possível chegar mais profundamente a uma formação lingüisticamente mais completa e mais próxima à experiência dessa pessoa – o que se chama a “estrutura profunda” da linguagem -, e acessar assim o seu mapa ou modelo mental. A atenção e o uso da linguagem verbal do falante permite identificar através do mesmo questões tais como as omissões de informação, as generalizações e distorções nas suas formas de pensamento, suas crenças, os critérios que utiliza para valorizar as coisas, suas “metáforas” pessoais como reflexo de certas atitudes de pensar e atuar, seus estilos de interação social ou estilos de liderança, os denominados “meta-programas” ou orientações vitais, as estratégias de ação que utiliza para alcançar certos resultados, e muitas outras coisas mais. Isso requer, por parte do comunicador, grande flexibilidade de conduta, uma fina destreza de observação e uma atitude de escuta ativa.

3) A observação da “linguagem corporal”. A fisiologia humana é responsável em muitos sentidos de nossa experiência interna e é, ao mesmo tempo, um reflexo de tal experiência. Certamente, isto supõe também recursividade e interação, no sentido que a própria experiência interna influencia e afeta a corporalidade. Por isso, a observação atenta do corpo de uma pessoa oferece múltiplos sinais indicadores de processos subjetivos que constituem elementos essenciais de seus modelos mentais. Por outro lado, o “acompanhamento” da linguagem corporal do interlocutor, como técnica de trabalho, isto é, o uso do próprio corpo do profissional comunicador para fazer “espelho” da conduta corporal do outro, representa uma sutil e eficaz ferramenta em relação a seus mapas e de conhecimento e compreensão de sua experiência interna.

Tradução: Equipe Sua mente.com.br

Referência: http://www.pnlnet.com/chasq/a/66

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Uma Resposta para “Sobre Mapas, Modelos Mentais e Paradigmas”

  1. Oi!
    Tenho um interesse enorme por Programação Neurolinguística e descobri o teu site na página do Curiosando. Descobri a PNL casualmente (se é que existe casualidade) quando li num site trechos do livro de Anthony Robbins “Desperte o gigante interior”. Encomentdei o livro, li e adorei. Já comprei outros livros de outros autores: “A nova tecnologia do sucesso”, de Steve Andreas e Charles Faulkner; “Manual de Programação Neurolinguística”, de Joseph O’Connor e “O novo cérebro”, de Nelson Spritzer. Se você tiver sugestão de livros agradeço.
    Um abraço.

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