ESTRESSE, CÂNCER E A ABORDAGEM MENTECORPO – I

Durante longos anos a comunidade médico-científica (afinal, Descartes é ou não é o nosso patrono?) recusou-se a admitir que o estresse psicológico persistente causasse ou contribuísse para desencadear doenças graves. E muito mais resistiu à idéia de que seu controle prevenisse o aparecimento e interferisse na evolução (melhora, recuperação ou cura) de tais enfermidades.

Entre as principais causas desta resistência, citemos: 1. a ignorância de muitos esculápios, segundo os quais “o mundo termina no meu quintal e não estou disposto a perder meu precioso tempo com histórias da Carochinha” – como o homem de negócios do Pequeno Príncipe. 2. não havia uma teoria integrada que explicasse como coisas intangíveis como certos padrões de pensamentos, emoções e de “fisiologia” se relacionassem com os complexos mecanismos e processos existentes nas referidas doenças.

Por oportuno, esclareçamos que, no presente contexto, pensamentos são representações mentais ou internas de imagens, de sons (da natureza, musicais, monólogos ou diálogos) e de sensações físicas (por exemplo, lembrar como é beijar a nossa doce amada); emoções são, ainda neste contexto, sensações corporais específicas localizadas ou difusas, agradáveis ou desagradáveis; “fisiologia”, com aspas, não diz respeito ao funcionamento dos nossos partidos políticos nem mandatários, maledicente leitor. Significa o conjunto das expressões fisionômicas, gestos, posturas, movimentos dos olhos, características da voz etc.

Prossigamos: 3. a implacável e diuturna lavagem cerebral exercida pela “indústria da doença” sobre médicos, estudantes e assemelhados, para a qual não há vida inteligente fora da alta tecnologia aplicada à medicina. 4. nós, médicos, cientistas e pesquisadores aprendemos a prestar atenção (e valorizar) as coisas que podem ser medidas mais facilmente. E, evidentemente, é mais fácil mensurar a pressão arterial e dosar o colesterol no sangue do que quantificar o estresse emocional, posto que ainda não construímos um estressômetro plenamente confiável.

Mas nem sempre o que é mais simples medir é o mais importante. E isto me remete a uma historinha sufi, que passo a relatar sem mais delongas:

Estava um cidadão, acocorado sob um poste de luz, procurando as chaves de casa. Eis que se aproxima um estranho que, inteirado do fato, dispõe-se a ajudá-lo. Procura, que procura, sem sucesso, pergunta o desconhecido: “Mas você tem certeza que perdeu suas chaves aqui?” “Nããããão!”, responde o outro, “perdi-as dentro de casa!”. “Cáspite!”, exclamou o primeiro, “por que então não as procura lá?” “Elementar, meu caro Watson. É que aqui está claro e lá dentro está escuro…” O ínclito leitor já experimentou medir a pressão com um termômetro ou tomar a temperatura com um aparelho de pressão? Pois é, às vezes é preciso procurar noutro lugar, mesmo que esteja escuro…

As investigações pioneiras de Hans Selye sobre o estresse, atualizadas por outros pesquisadores e neurocientistas, trouxeram uma contribuição inestimável ao demonstrar que padrões de pensamentos, emoções e fisiologia representavam, na realidade, estímulos que alcançavam uma parte do cérebro – o sistema límbico. Esta estrutura codificava (e decodificava) tais mensagens, preparando o sistema para reagir adequadamente. Como, minha senhora, não está muito claro? Seguinte: o sistema límbico identificava, por exemplo, que certos padrões já assinalados significavam uma ameaça (real ou imaginária, não faz diferença). Daí, através de moléculas mensageiras, através da circulação do sangue, e de impulsos elétricos, via conexões dos neurônios, modificavam o organismo, DNA inclusive!, para enfrentar àquela ameaça. Isto quer dizer a liberação de doses industriais de cortisol, adrenalina e noradrenalina. Se, por outro lado, os padrões de pensamentos, emoções e fisiologia fossem identificados como real ou imaginariamente prazerosos, outras substâncias, como as betaendorfinas, serotonina e acetilcolina eram secretadas para mediar mudanças orgânicas opostas.

Na medida em que se acumularam mais e mais publicações de autores renomados sobre tão instigante tema, a inteligentzia médico-científica passou a aceitar o papel do estresse e do seu controle, ou seja, de certos padrões de pensamentos, emoções e fisiologia, no câncer, na hipertensão arterial, nas doenças cardiovasculares e no diabetes, entre muitas outras (senão todas).

Todavia, gentil leitor, esta aceitação ainda hoje, é muito mais conceitual do que prática. Assim o demonstram os exemplos de que a maior parte dos programas de prevenção ou de reabilitação não inclui o controle do estresse persistente nem a maioria dos médicos incentiva seus pacientes para que aprendam a fazê-lo. Outrossim, nos congressos e reuniões médicas, estas práticas – quando existentes – costumam figurar de forma marginal. É mais fácil prescrever uma pílula.

Fonte: www.nelsonmarins.com.br

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