Avaliação da sugestionabilidade

Resumo

Este trabalho examina as pontuações da variável sugestionabilidade e sua distribuição em uma amostra de 124 pessoas através da aplicação da Escala de Sugestionabilidade de Barber – BSS, em forma de grupo.Trata-se de uma prova padronizada usada na investigação científica da hipnose, composta por oito itens. As respostas das pessoas foram avaliadas através de auto-relatórios. Os resultados indicam diferenças nas médias das respostas aos itens, correlação significativa entre os diferentes itens da prova e uma tendência a diferenças de gênero. Por outro lado, na exploração da estrutura da prova, foram obtidos dois fatores: o Fator I que agrupa os itens de respostas motoras e o Factor II que agrupa os itens mais relacionados a respostas cognitivas. A avaliação da sugestionabilidade tem repercussões práticas, clínicas e na investigação da hipnose.

Sobre a avaliação da sugestionabilidade

A sugestão é um fenômeno inerente à hipnose e mesmo que exista uma sugestão sem hipnose, não é possível entender a hipnose sem a sugestão (González Ordi e Miguel-Tobal, 1993). Assim, para diversos autores, o uso de sugestões, diretas ou indiretas, adequadas e dirigidas a provocar mudanças cognitivas, fisiológicas ou comportamentais no indivíduo é a característica mais distinta das técnicas sugestivas de hipnose (Bowers, 1976; Kroger, 1963; Wolberg, 1982).

Na investigação científica da hipnose desenvolveu-se uma série de instrumentos padronizados, que permite medir as respostas das pessoas a sugestões, o aumento da sugestionabilidade durante o processo hipnótico, com repercussões tanto práticas quanto clínicas (Council, 1999). Estes testes, ou escalas, que pretendem medir a hipnotizabilidade avaliam o que se chamou de sugestionabilidade, suscetibilidade ou receptividade hipnótica. Todos estes conceitos podem ser considerados sinônimos da habilidade ou capacidade da pessoa de produzir comportamentos e experiências que se enquadram no complexo domínio da hipnose (Hilgard, 1973).

A construção de uma escala começa pela seleção de uma série de comportamentos e experiências características da hipnose. Os itens que representam estes tipos de respostas são colocados à prova com um grande número de pessoas sem experiência com a hipnose. Depois de um ensaio de indução por meio de um método padrão de hipnose (opcional), a pessoa é avaliada através da observação de suas respostas a várias sugestões (com relação às quais se sabe que respondem às pessoas hipnotizadas). Estes testes não são mais do que uma amostra da ampla possibilidade de comportamentos e experiências hipnóticas. Quanto mais sugestões a pessoa responder, mais hipnotizável se julga ser. As normas se derivam através deste método empírico. O método funciona devido ao que se constatou nos distintos itens, diferentes em seu aspecto formal e estrutural, correlacionados positivamente entre si e, portanto, representam um fenômeno comum (Piccione, Hilgard e Zimbardo, 1989).

Exemplos destas escalas são:

- A Stanford Hypnotic Susceptibility Scale, Formas A, B e C (SHSS: A, B y C; Weitzenhoffer e Hilgard, 1959-1962), umas das escalas mais utilizadas em pesquisa com adultos. Para as crianças, a Stanford Hypnotic Clinical Scale for Chlidren, Formas A e B (Morgan y Hilgard, 1978).

- The Creative Imagination Scale (CIS; Barber e Wilson, 1979), muito útil para ser usada com pessoas apreensivas a respeito da hipnose.

- A Escala Martínez Perigod-Asís (1983) é uma das poucas provas elaboradas em espanhol.

As pesquisas indicam que as pontuações dos adultos, nas diversas escalas, permanecem relativamente estáveis no tempo, em ausência de procedimentos de modificação (Piccione, Hilgard e Zimbardo, 1989), e que as diferentes escalas correlacionam entre si a níveis que vão desde moderados a altos. Por outro lado, tanto com provas projetivas (por exemplo, o Test de Rorschach ou o TAT) quanto com testes empíricos, por exemplo: Inventário MMPI, não foram encontradas características de personalidade que prevêem maior suscetibilidade hipnótica (Hilgard, 1979). As pesquisas com crianças indicam uma relação curvilínea entre a idade e a hipnotizabilidade (U invertida), com um pico na categoria de idade entre 8 e 12 anos (Oldness y Kohen, 1996).

Com relação às porcentagens de receptividade à hipnose, Hilgard e Hilgard (1990) constatam referências de cerca de 20 mil casos que indicam que cerca de 10% das pessoas não são suscetíveis à hipnose, 30% são ligeiramente, outros 30% moderadamente e 30% muito hipnotizáveis. Assim, se fala dos três terços: um terço de pessoas com baixa hipnotizabilidade, um terço de intermediários e um terço de alta hipnotizabilidade. Barber (1999), através do estudo das pessoas altamente hipnotizáveis, propõe que a habilidade hipnótica está composta por três dimensões: a primeira dimensão está associada a um grupo de pessoas com tendência à fantasia, lembranças vividas e instabilidade psicossomática; a segunda, associada a pessoas com tendência à amnésia e à dissociação; e a terceira composta por pessoas com uma atitude positiva, motivadas e com expectativas positivas em relação à hipnose. Inclusive outros autores consideram que a capacidade hipnótica é mais tipológica do que dimensional (Oakman y Woody, 1996).

Diversos estudiosos propõem um ponto de vista alternativo, partindo das implicações estruturais de análise fatorial. Esta posição propõe que nas escalas de sugestionabilidade sobressaem pelo menos dois fatores ou mecanismos importantes, cujas contribuições relativas mudam com a dificuldade dos itens. Um mecanismo inferido dos resultados dos itens fáceis, que está estreitamente relacionado a um tipo de sugestionabilidade não exclusiva da hipnose, determinado por variáveis contextuais, tais como as atitudes e as expectativas – fator de sugestionabilidade social-; e outro mecanismo dos resultados dos itens difíceis, que está mais estreitamente ligado à hipnotizabilidade “verdadeira”, o fator de sugestionabilidade vinculada à hipnose. Assim, a sugestionabilidade social seria especialmente importante como determinante dos resultados dos itens fáceis e o outro mecanismo seria especialmente importante como determinante do desempenho nos itens difíceis (Woody, Drugovic e Oakman, 1997).

Finalmente, não se deve esquecer que o grau de resposta diante das sugestões (ou seja, o número de sugestões às quais as pessoas respondem) pode se modificar com o treinamento (Gorassini e Spanos, 1986), e que um dos efeitos da hipnose é a mudança, o aumento quantitativo, da sugestionabilidade (Hull, 1933). De um ponto de vista cognitivo de conduta, não se considera a hipnotizabilidade uma peculiaridade por si mesma, mas que se define operacionalmente como uma habilidade aprendida que se pode ensinar (Chaves, 1993).

A Hipnose, de um ponto de vista do processamento da informação e das emoções, pode-se considerar um estado transitório da pessoa, induzido externa ou internamente, nas quais o processamento da informação tanto dos estímulos que são recebidos do exterior, quanto das produções que ela mesma gere (imagens, pensamentos, respostas, emoções e sensações), pode ter um grande impacto sobre o resultado e integração dessa informação. Isto é, sobre a aprendizagem, de um ponto de vista amplo do termo (emocional, cognitivo e comportamental). Ele se deve à interação de fatores sociais, de atenção, de motivação, cognitivos e afetivos, assim como ao próprio estado do organismo (Morales e Gallego, 2001).

Atualmente, os procedimentos hipnóticos, ou técnicas hipnosugestivas, são aplicados praticamente em todas as áreas de intervenção psicológica: a) No campo clínico, como técnicas adjuntas ou catalizadoras do processo terapêutico (Morales e Gallego, 1998; Morales, Gallego e Prior, 2000); b) na prevenção de transtornos ligados ao desempenho de trabalho (Rotger, Gallego e Morales 2000); c) na psicologia educativa (Morales, Gallego, Mestre e Sancho, 2000) ; e d) em intervenções aplicadas à superação e melhora, como na psicologia esportiva (Morales e Gallego, 2003). É imprescindível destacar a publicação recente de livros e guias sobre a hipnose com uma postura teórica integradora (Capafons, 2001; Gonzalez Ordi, 2001; Kirsh, Capafons, Cárdena-Buelna e Amigó, 1999).

O estudo presente

Objetivo e material

Esta pesquisa pretende avaliar as respostas hipnóticas das pessoas, sua distribuição e características, através da Escala de Sugestionabilidade de Barber – Barber Suggestibility Scale – BSS (Barber e Calverley, 1963. Tradução de González Ordi, 1987), e se molda no contexto de uma conferência sobre a hipnose na Universidade de Illes Balears, no mês de março de 2002, dada pelos autores deste trabalho.

A escala BSS foi criada para sua administração com ou sem indução hipnótica prévia. Temos visto que o conceito de sugestionabilidade se refere a uma construção teórica relacionada às diferenças individuais na hipnotizabilidade. A BSS compreende oito itens:

1) DB – Descida do braço
2) LB – Levitação do braço
3) BM – Bloqueio das mãos
4) SS – Alucinação de sede
5) IV – Inibição verbal
6) IC – Imobilidade corporal
7) RP – Resposta após a hipnose
8) AS – Amnésia seletiva

O experimentador avalia as respostas das pessoas às sugestões por meio da observação e do registro do comportamento objetivo, e mediante o auto-registro das pessoas de suas experiências subjetivas, com uma classificação por pontos 0 a 3 em cada item.

Os níveis de sugestionabilidade das pontuações totais são distribuídos da seguinte forma (as instruções não indicam se estes níveis variam segundo a condição, com ou sem indução hipnótica prévia):

- Entre 0 e 5: NÍVEL BAIXO
- Entre 6 e 9: NÍVEL MÉDIO – BAIXO
- Entre 10 e 15: NÍVEL MÉDIO – ALTO
- Entre 16 e 24: NÍVEL ALTO

Trata-se de uma escala relativamente curta, com boa confiabilidade e validade. A confiabilidade test-retest apresenta uma relação de .80, e a consistência interna está em uma categoria similar tanto com indução hipnótica, quanto sem indução (Council, 1999). Está composta por 4 itens de sugestões positivas (ação-fazer): 1 – 2 – 4 – 7; e 4 itens de sugestões negativas (inibição-não fazer): 3 – 5 – 6 – 8.

A análise de dados foi realizada através do pacote estatístico SPSS 6.1.1 para Windows.

Método

Pessoas

A amostra do estudo está composta por 124 pessoas (100 mulheres e 24 homens), em sua maioria estudantes de psicologia, com idades entre 18 e 37 anos. A Escala de Sugestionabilidade de Barber foi aplicada na forma de grupos, sem indução hipnótica prévia. O auto-registro das pontuações das experiências subjetivas das pessoas foi voluntário.

Resultados

A Figura 1 mostra a distribuição das pontuações totais das pessoas na BSS (Xt= 8.84; DE= 4.38). É possível observar que as mulheres obtêm pontuações mais altas do que os homens na variável sugestionabilidade (Xm= 9.15, DEm= 4.35; Xh= 7.54, DEh= 4.40), se bem que a amostra estando a favor das mulheres, os resultados não chegam a ser significativos (t= 1.62; alfa= .10).

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Figura 1. Pontuações totais na Escala de Barber – BSS

A Tabela 1 apresenta as pontuações médias das variáveis de interesse, tipos de sugestões e total, assim como as variações típicas dos itens. Realizado Test de Friedman, constataram-se diferenças significativas entre eles. Os itens com sugestões de ação apresentam valores mais altos do que os de inibição (t= 5.56; alfa= .000).

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Tabela 1

A distribuição de freqüências das pontuações totais da escala apresenta uma simetria (Coeficiente Simetria= -.159) com muitas pontuações acumuladas no extremo superior e mais dispersas no inferior. Aliás, observa-se uma coincidência entre a pontuação da média da amostra, e a pontuação normativa da prova que divide a classificação das pessoas entre média alta ou alta sugestionabilidade e de média baixa ou baixa sugestionabilidade (pontuação Xnorma= 9.5).

A Tabela 2 apresenta as freqüências das pontuações totais das pessoas e suas porcentagens parciais e acumuladas. Observa-se que nos níveis de sugestionabilidade médios-baixos e baixos, as freqüências estão equilibradas; entretanto, o nível médio-alto apresenta uma alta freqüência e o alto, uma baixa freqüência.

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Tabela 2

A Tabela 3 apresenta as relações entre os itens. A consistência interna da escala é similar a de pesquisas anteriores (alfa de Cronbach= .766). O índice de confiabilidade das sugestões de inibição (alfa 3,5,6,8= .68) é ligeiramente superior a das sugestões de ação (alfa 1,2,4,7= .58). Observa-se uma relação negativa (r=-.204; p= .023) entre a idade e as sugestões de ação.

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Tabela 3

Prévia comprovação de sua adequação, mediante o teste Kaiser Meyer Olkin (KMO) e o teste de esfericidade Bartlett, foram realizadas análises fatoriais Componentes Principais dos dados, com rotação Varimax. Como indica a Tabela 4, foram obtidos dois fatores com valor próprio (eigenvalue) maior que 1, os dois fatores explicaram de maneira conjunta 53,3% da variação total.

O Fator I integra as sugestões relacionadas a comportamentos motores: 1) Descida de braço; 2) Levitação do braço; 3) Bloqueio das mãos; e 6) Imobilidade corporal. O Fator II agrupa sugestões mais complexas, involuntárias e cognitivas: 5) Inibição verbal; 7) Resposta pós-hipnótica; e 8) Amnésia seletiva. O item 4 (Alucinação de sede) corresponde a una sugestão complexa (sensação de lábios, boca e garganta ressecadas depois de ter realizado um grande passeio em um dia quente) e aparece como pouco consistente.

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Tabela 4 – Matriz de cargas fatoriais para a solução de Fatores com valor próprio (eigenvalue) superior a um, utilizando Componentes Principais e rotação Varimax; n=124

Discussão dos resultados

Os resultados deste estudo apóiam os achados sobre a utilidade funcional da avaliação da sugestionabilidade. Por exemplo, na capacidade de previsão, já que foi demonstrada a relação entre a sugestionabilidade e a redução da dor clínica e experimental (Hilgard e Hilgard, 1990), e com os transtornos da ansiedade, como no Transtorno por Estresse Pós-traumático (Morales e Gallego, 1998). O uso de instrumentos confiáveis na avaliação e “screening” permite a implementação de tratamentos com maiores probabilidades de sucesso e, além disso, estudos longitudinais, de até 25 anos indicam que as pontuações de sugestionabilidade são altamente estáveis no tempo em ausência de procedimentos de modificação (Piccione, Hilgard e Zimbardo, 1989).

Se considerarmos a proposta de Hilgard sobre os três terços, anunciada antes, e os resultados desta avaliação, propomos algumas pontuações de corte para esta amostra: menos de 2.0 (P10): muito pouco sugestionáveis; até 8.0 (P40): ligeiramente; até 12 (P70) moderadamente; e pontuações superiores a 12: altamente sugestionáveis. Aliás, de um ponto de vista terapêutico, deve-se considerar que o modo em que as pessoas respondem às sugestões é altamente influenciado pela relação interpessoal entre o paciente e o terapeuta (Barber, 1988), e que os êxitos revelam a capacidade do paciente mais que a habilidade do terapeuta (Chaves e Dworkin, 1997).

Por outro lado, na exploração da estrutura da prova (mediante a análise fatorial), foram obtidos dois fatores. O Fator I que agrupa os itens relacionados com respostas motrizes, seja por meio de sugestões de movimento direto (Descida de braço e Levitação de braço) ou de desafio e inibição do movimento (Bloqueio de mãos e Imobilidade corporal) e com um forte peso do item 1 (Descida de braço). O Fator II agrupa sugestões mais complexas, involuntárias e cognitivas. Está integrado pelos itens: 5) Inibição verbal; 7) Resposta pós-hipnótica; e 8) Amnésia seletiva (com forte peso neste fator).

Considerando-se os resultados dos itens (Tabela 1), os resultados de análise fatorial (Tabela 4) podem ser interpretados a partir do modelo dos dois fatores, explicado antes: Um fator determinante dos resultados dos itens fáceis, relacionado a um tipo de sugestionabilidade não exclusiva da hipnose, determinado por variáveis como as atitudes e as expectativas. No nosso caso, relacionado a comportamentos motrizes. Outro fator determinante de desempenho nos itens difíceis, relacionado à sugestionabilidade vinculada com a hipnose (Balthazard e Woody, 1985; Woody, Drugovic e Oakman, 1997). No nosso caso, relacionado a respostas cognitivas ou involuntárias. Aliás, diversas pesquisas não puderam replicar este modelo. Por exemplo, foi observado que as expectativas das pessoas é a variável que se relaciona mais altamente à resposta hipnótica e, especialmente, nas pessoas com alta sugestionabilidade diante dos itens difíceis: as expectativas dão conta de 24% da variância da sugestionabilidade (Kirsch, Silva, Comey e Reed, 1995).

Estes resultados nos animam a realizar pesquisas com grupos menores, através da escala BSS, que permite observar e registrar o comportamento objetivo e, assim, poder avaliar a Desestabilidade Social (com condição de observação alta, subjetivo baixo) e as Expectativas do Experimentador (com condição de observação baixa, subjetivo alto). Por outro lado, consideramos necessário ampliar a amostra de pessoas para replicar a avaliação e análise realizadas.

Luciana Alves
Tradutora Técnica Inglês/Espanhol/Português
luciana_trad@terra.com.br

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