A técnica da grelha como instrumento avaliador da auto-estima
Jose Antonio Jiménez Carmona
Alunos internos do Dpto. de Psiquiatria, Personalidade, Avaliação e Tratamento Psicológico
Faculdade de Psicologia da Universidade de Sevilha.
Os estudos atuais sobre si mesmo não o colocam como uma dimensão única, mas como um conjunto de concepções que a pessoa mantém sobre si mesma. (Markus e Nurius, 1986; Higgins, 1987). Esta visão concorda com os planejamentos da Teoria dos Constructos Pessoais (Kelly, 1955) e com enfoques do tipo construtivista que descrevem ao “eu” como composto por diferentes tipos de esquemas de natureza verbal e/ou imaginativa, sendo universais os nucleares, caso da auto-estima. (García Martínez, 1998).
O “eu” mesmo, a grosso modo, estaria composto por:
- Elementos que fazem parte do campo da experiência da pessoa, como o eu real (representação própria).
- Elementos referentes a realidades não experienciadas, como o eu ideal (representação desejada) ,eu deveria (representação “dever ser”), eu rejeitado (representação do que se rejeita).
Com estes diferentes elementos de si mesmo se realizaram diferentes estudos que pretendem mostrar as relações que se podem estabelecer entre isso e as possíveis discrepâncias, conceito utilizado por Higgins para mostrar a existência de diferenças entre elementos.
Assim, autores como Higgins, Bond, Klein e Strauman (em Avia 1995), relacionam discrepâncias entre o “eu real”, o “eu ideal” e o “eu ideal com transtornos depressivos” e entre o “eu real” e o “eu deveria” com transtornos do tipo ansioso.
Moretti e Higgins (em Avia 1995) encontram resultados no que a baixa auto-estima se dá em pessoas que mostram discrepâncias entre seu “eu real” e seu “eu ideal”. Autores como Feixas (1992), utilizam precisamente esta discrepância como índice global da auto-estima.
Por outro lado, Ogilvie (em Avia, 1995), conclui nos seus estudos que a satisfação pessoal está estreitamente relacionada com discrepâncias entre o “eu real” e o “eu rejeitado”.
Em nosso estudo fazemos uso da técnica da grelha de Kelly, na sua versão interpessoal, a qual está composta de vários elementos, neste caso pessoas significativas para a pessoa avaliada (pai, mãe, casal…), assim como elementos do sistema do “eu mesmo” (eu real, eu ideal, eu deveria e eu rejeitado). Das comparações entre estes elementos se citam os constructos que fazem parte do sistema de significados da pessoa.
Quanto a resultados quantitativos, esta técnica contribui entre outros para, análise de correspondência simples, correspondência simples entre elementos e constructos, correlações de Pearson, análise de conglomerados e correlações entre elementos…, sendo estes últimos os resultados utilizados neste estudo.
A construção da grelha responde a alguns planejamentos teóricos e metodológicos característicos que mais tarde serão abordados e que neste estudo pretendem comparar-se com outros diferentes como os que pode contribuir com uma técnica como a Escala de Autoconceito de Tennessee (EAT) criada por Fitts (1975).
O EAT é uma prova psicométrica que avalia 3 dimensões do eu mesmo, Auto-estima (valorização afetiva), Auto-conceito (valorização cognitiva) e Auto-comportamento (valorização comportamental) em 5 manifestações ou aspectos externos (Física e de saúde, moral e religiosa, pessoal, familiar e social).
Com este estudo pretendemos relacionar os índices de Auto-estimas contribuídos por ambas às provas, com a hipótese que haverá uma ausência de correlação entre ditos índices. As diferenças que as provas, podem contribuir com informação em relação a este resultado.
MÉTODO.
Pessoas:
Número de pessoas: 20
Sexo: 13 mulheres/ 7 homens
Idade: Entre 17-28 anos
Características: Nível educativo medio-alto
MATERIAIS:
Caderno de perguntas do Tennesse.
Folhas de respostas do Tennesse
Folhas de correções do Tennesse
Folha de pontuações do Tennesse
Moldes da Grelha.
Folhas de descrição dos constructos.
Programa informático Record v. 2.0
Programa informático estatístico SPSS.
SalaI>
Sala de avaliação.
Caneta
PROCEDIMENTO
Com o prévio consentimento da pessoa, o entrevistamos individualmente para lhe explicar os objetivos do estudo e o procedimento que vai se executar com sua colaboração.
As duas provas são implementadas a cada pessoa, controlando os efeitos da ordem de apresentação mediante contrabalanço. Em 50% da amostra se a aplica primeiro o Tennesse e posteriormente a grelha, e aos outros 50% a ordem inversa.
Antes de começar com cada prova, são dadas instruções precisas para compreendê-la, assegurando a perfeita compreensão da mesmas.
A pessoa não tem limite de tempo para realizar ambas provas, as quais se aplicam em dois momentos diferentes com o único objetivo de evitar a fadiga da pessoa.
Finalmente, se agradece a pessoa pela participação, assegurando-lhe o anonimato e confidencialidade dos resultados, ao que poderá ter acesso se assim o desejar.
RESULTADOS
- Análise de Correlações
|
Correlação |
Correlação |
Correlação |
|
|
EAT |
0.0816 |
-0.2817 |
0.2022 |
|
Auto-comportamento |
0.0787 |
-0.2540 |
0.2476 |
|
Auto-conceito |
-0.0975 |
-0.1292 |
0.0361 |
|
Auto-estima |
0.1602 |
-0.2365 |
0.1426 |
Tabela 1
- W. De Mann-Whitney utilizando a pontuação total do EAT como critério
|
EAT |
Auto-comportamento |
Auto-conceito |
Auto-estima |
Auto-estima |
C.Y-dev. |
C.Y-Reje. |
C.Y-Ideal |
|
|
F |
29.5860 |
1103387 |
4.1860 |
17.5191 |
0.1934 |
0.5181 |
0.7477 |
|
|
F |
0.0000 |
0.0034 |
0.0557 |
0.0006 |
0.6653 |
0.4809 |
0.3986 |
Tabela 2
- A NOVA utilizando a pontuação total do EAT como critério
|
EAT |
Auto-comportamento |
Auto-conceito |
Autoesti=”12%”> |
C.Y-dev. |
C.Y-Reje. |
C.Y-Ideal |
|
|
Z |
-3.7089 |
-2.7440 |
-1.8185 |
-3.1001 |
-0.3091 |
-0.6946 |
-1.0030 |
|
P |
0.0002 |
0.0061 |
Tabela 3
- W de Mann-Whitney utilizando a correlação Eu – Eu ideal como critério
|
EAT |
Auto-comportamento |
Autoconceito |
Auto-estima |
CY-Ideal |
|
|
Z |
-1.255 |
-1.5223 |
-0.1905 |
-0.5724 |
-3.7607 |
|
P |
0.2093 |
0.1279 |
0.8489 |
0.5671 |
0.0002 |
Com o objetivo de avaliar as similitudes e/ou diferenças entre as duas provas, foi elaborado um banco de dados com os valores de todos os índices contribuídos pela EAT e os índices gerais e correlações entre “eus” da grelha.
Sobre este banco de dados foram realizadas diferentes análises estatísticas:
Em primeiro lugar os dados são submetidos a uma análise de correlações entre os índices do EAT e as três correlações nas quais participa o “eu”. (ver tabela 1).
Esta análise mostra a ausência da correlação significativa entre os valores contribuídos por sendas prova.
Logo em seguida o procedimento é realizar uma análise de variação introduzindo uma divisão da amostra a partir da meia na pontuação total do EAT, estabelecendo dois grupos em função de si, que se encontram abaixo ou acima de dita media. Os resultados voltam a mostrar ausência de correlação significativa. (ver tábela 2).
Posteriormente, e com a divisão anterior, se aplica a W de Mann-Whitney, arrojando idênticos resultados quanto a correlação e significatividade. (ver tábela 3).
Finalmente, se realiza o mesmo procedimento estatístico, mas utilizando agora a divisão da amostra em função da media da correlação “eu – eu ideal”, confirmando os resultados anteriores. (ver tábua 4).
Portanto, os resultados obtidos derivados da grelha de Kelly e do EAT de Fitts mostram, em todos os casos, uma ausência da correlação significativamente estatístico, mesmo que podem se apreciar certas tendências. Concretamente entre a correlação “eu – eu rejeitado” e os indicadores do Tennesse ou entre a correlação “eu-eu ideal” e a pontuação total do EAT, sendo no primeiro caso uma correlação negativa e positiva no segundo. No entanto, em nenhum caso são significativas estatisticamente.
DISCUSSÃO
A hipótese de nosso estudo sustentava a ausência de correlação entre os diferentes índices que sobre a auto-estima contribuem as técnicas da grelha de Kelly e a EAT de Fitts, planejamento que, à luz dos resultados obtidos, fica aceitado.
Esta assunção implica, não obstante, o ter de dar resposta a uma série de questões. As dúvidas se agrupam, fundamentalmente, em torno de dois pontos, a saber, a explicação, por um lado, de por que duas provas que aparentemente têm o mesmo objeto de avaliação, arrojam resultados tão sumamente contraditórios, e determinar, por outro, o “verdadeiro” valor da auto-estima.
Quanto à primeira questão, nos estamos referindo a dois aspectos, as características específicas, a todos o níveis, de ambas as provas e as variáveis relacionadas com a situação de avaliação.
A nosso entender devemos refletir sobre a natureza de ambas as provas, especialmente no concernente à auto-estima, para tentar esclarecer estas incógnitas.
A técnica da grelha, a diferença das provas psicométricas, parte do fato de considerar como código e referente único, o mundo de significados próprios da pessoa; isto é, quando utilizamos a grelha trabalhamos com as construções subjetivas da pessoa avaliada sem que se tenha nenhum outro tipo de referencia extra pessoal ou periférico ao mundo de significados individual da pessoa.
Este aspecto tem uma especial relevância se compararmos esta técnica com as provas psicométricas, em geral, e o Tennesse, em particular; este tipo de instrumento, construído a partir de dados populacionais, requer, em último caso – na hora de interpretar-, de uma mesma população como meio de cronograma, isto é, a pessoa se compara com outras (população de referência) para obter uma pontuação ou medida quanto a um atributo.
No caso específico da avaliação da auto-estima, esta circunstância pode explicar os resultados obtidos; enquanto que na grelha se avalia o julgamento pessoal que o sujeito faz sobre si mesmo em função dos constructos elicitados, significados próprios, no Tennesse o sujeito avalia afirmações que pretendem descrevê-lo mas que não são produções próprias, mas contribuições da população de referência.
A auto-estima de uma pessoa pode se mostrar alta, mesmo que seus índices possam ser baixos em nível populacional, sempre e quando a pessoa não encontre discrepâncias entre o que é e o que deseja ser; se aceita em função de seus próprios critérios (significados) que não têm por que coincidir, inclusive podem ser conclusivos, podem ser contraditórios, com os contribuídos pela norma (população).
Poderia se questionar a comparação entre ambas as provas, também, atendendo às características psicométricas das mesmas, já que ambas diferem quanto a características de fiabilidade e validade, em base, fundamentalmente, às concepções que suas perspectivas mantêm em relação a estes conceitos.
No que respeita à fiabilidade e validade da grelha, esta conta com algumas particularidades. Como comentamos anteriormente, a finalidade da grelha, e este em um aspecto muito importante, é uma abordagem idiográfica, o qual, em princípio minimiza a importância da fiabilidade e validade normativa.
É difícil falar de fiabilidade na grelha, quando esta pretende ser um instrumento de medida sensível à instabilidade e à mudança, algo que está relacionado com o que dizia Kelly quando ironicamente definia a fiabilidade como a característica de um teste que o faz insensível à mudança.
Com a validade ocorre praticamente o mesmo como afirma Yorke, (1989), quando considera a validade de conteúdo da grelha como “problemática”, levando em conta a dificuldade para saber se os elementos ou constructos utilizados são representativos de suas povoações respectivas.
Não obstante, no que se refere à validade de constructos e preditiva, os estudos arrojam resultados positivos. Adams-Webber, (1979); Anthony Ryle, (1975); Ryle e Lunghi, (1971); Ryle e Breen, (1972).
Por sua vez, o Tennesse, como prova genuinamente psicométrica, mostra dados altamente contrastados e aceitáveis desde este ponto de vista.
Ambas as provas, portanto, mesmo que com seus matizes, mostram dados que apóiam sua utilidade desde um ponto de vista psicométrico e não seria adequada a invalidação de alguma dela atendendo a critérios comparativos.
Achamos necessário destacar uma série de fatores que também poderiam estar influindo nos resultados, tal como se mostram. Assim, o conhecimento que a pessoa tem sobre o que se avalia (o disfarçado da prova), mais patente no Tennesse que na grelha; a medição de características como a auto-estima e o auto-conceito, que implica fazer referências a aspectos como à satisfação corporal, atitudes éticas e morais… Os quais convidam mais ao falseamento e à aparição de efeitos de desabilidade social, o que pode provocar erros na medição; por último, uma variável intrínseca ao estudo, a mostra tampouco é representativa desde um ponto de vista estatístico, logo ao número de pessoas, devido ao elevado custo de tempo que supõe o administrar ambas provas (aproximadamente 2 horas/pessoa).
Finalmente, com relação ao segundo das dúvidas, o “verdadeiro” valor do objeto avaliado, pensamos que não se tratam de diferentes auto-estimas, poderiam ser simplesmente diferentes aspectos (dimensões/níveis) de um mesmo conceito, isto é, seriam diferentes formas de ver e entender a auto-estima; assim, Fitts, tal como amostra na EAT entende à auto-estima como a dimensão afetiva quanto à aceitação própria considerada desde o ponto de vista dos outros, enquanto Kelly, desde seu EAT, a define como a proximidade entre o que sou e o que desejo ser, desde um ponto de vista mais pessoal.
Antes de concluir queremos assinalar que este estudo não pretende ser um inútil estudo de validade convergente – mesmo que em princípio fora movido próximo disso; indo em volta do tema, mas que analisado em profundidade foi precisamente o que o descartou – de nenhuma das provas, utilizando a outra como critério, mas quisemos mostrar as possíveis discrepâncias que podem surgir quando se utilizam provas que, aparentemente, medem um mesmo conceito mas diferem quanto a seus enfoques teóricos e metodológicos de base. Estes pressupostos de partida “moldam” o conceito de interesse fazendo-o diferente à luz de diferentes perspectivas.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
Allport, G.W.(1975): La Personalidad: su configuración y desarrollo. Barcelona. Herder.
Avia, M.D. y Sánchez, M.L. (1995): Personalidad: Aspectos cognitivos y sociales. Madrid. Pirámide
Bartolomé, M. (1983): Manual de la Escala de Autoconcepto de Tennesse. Madrid. Narcea.
Feixas, G. Y Cornejo, J.M. (1992): Manual de la técnica de la Rejilla mediante el programa Record.. Madrid. TEA ediciones
García, J.; García, J.; Garrido, M.; Rodríguez, L. (1997): Personalidad, procesos cognitivos y psicoterapia. Un enfoque constructivista. Madrid. Fundamentos.
Kelly, G.A: (1991): The psychology of personal construct.. New York. Routledge
Higgins, E.T.(1987): Self-discrepancy: A theory relating self and affect. Psychological review, 94, 319-340.
Markus, H. y Nurius, P.(1986): Posible selves. American Psychologist, 41, 954-969.
Tradução – www.suamente.com.br – Aprenda mais sobre sua mente!
Fonte: http://www.psicologia-online.com/colaboradores/jimenez/index.htm
Tags: auto-estima, Psicologia, técnica da grelha
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